Márcio de Freitas: Distraído, Brasil vê o mundo mudar

A guerra tradicional é um instrumento obsoleto. Provou isso a destruição massiva na Segunda Guerra Mundial, quando o avanço tecnológico de tanques, aviões e a bomba atômica tornou o herói individual uma peça de recordação tão distante quanto o arco de Páris (o da flecha no calcanhar de Aquiles). O ataque da Rússia à Ucrânia repisa o erro de dominação equivocada, que acabou arrastando a China a um cerco organizado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

A enfraquecida Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) voltou fortalecida com os movimentos de Putin. Ao contrário do que o russo desejava. Os Estados Unidos voltaram a ter um protagonismo que se projetava ultrapassado, após orquestrar a resposta do Ocidente à Rússia e se reaproximar de países Asiáticos contra ameaça de sino dominação arquitetada por Xi Jinping – quebrando o histórico recente do avanço pacífico gigantesco pelas vias econômicas desde as diretrizes de Deng Xiaoping da década de 1980.

Biden montou barricadas em duas frentes diferentes de conflito diplomático: um bloco ocidental com a Europa anti-Putin, outro oriental no Pacífico anti-Xi unindo Japão, Índia, Austrália e Coreia do Sul. Mesmo que domine a Ucrânia, Putin poderá ter na Ucrânia uma vitória de custos monumentais para o povo russo.

É bom sempre lembrar aos defensores de Putin que ele pratica invasões similares com argumentos idênticos aos usados no passado por um país vizinho, a Alemanha de Hitler. O Anschluss da Áustria e a invasão dos Sudetos na Tchecoslováquia foram para “proteger cidadãos alemães”, tal qual Putin alega fazer na Ucrânia de hoje em relação aos russos.

A guerra atual de Biden é diplomática, movida principalmente pela cooperação em busca de uma nova cadeia de suprimentos (menos dependente da China) e de fornecimento de energia (menos carbono dependente da Rússia). Não envolve envio de tropas, como no Vietnã. A equação é delicada, frágil no momento, mas com grandes chances de mexer bastante com o rearranjo do sentido futuro da globalização. Óbvio que a dependência de intercâmbio econômico e de matérias-primas ainda terá muito impacto entre os países, mas há sinais de busca por um certo grau de autonomia, multiplicidade de fornecimento e mais descentralização na cadeia produtiva…

Márcio de Freitas: Distraído, Brasil vê o mundo mudar